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domingo, 11 de julho de 2010

O equilíbrio...



"Os instantes mais dolorosos de nossa vida são aqueles que nos revelam a nós mesmos."

"Se estiveres no caminho certo, avança; se estiveres no errado, recua."

"A alma não tem segredo que o comportamento não revele."

Lao Tse, Tao Te Ching

domingo, 27 de junho de 2010

Sempre...


Viajante diante do mar de nuvens,
C. D. Friedrich, 1818


A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:


“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.
 
José Saramago

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Palavras emprestadas...


um Amigo contou a história "Viveste em mim...", as suas palavras encerram tudo o que pode ser dito e sentido... vou pedi-las emprestadas... não saberia fazer melhor
esta é a música que acompanha as suas palavras, um diálogo em crescendo entre os instrumentos... e no final um remate sereno e firme
uma música comovente, intensa, melancólica mas libertadora, a música dos pontos finais e das certezas...

afinal ainda sou eu, a minha sensibilidade está intacta...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Pale Blue Dot...




Quando é preciso relativizar... não há palavras mais inspiradoras...

sábado, 5 de setembro de 2009

Enquanto não atravessarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um.

Fernando Pessoa

sábado, 30 de maio de 2009

Desassossego...

"(...) o que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a procurar alibis para justificar o nosso conformismo então está tudo lixado."

José Afonso

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Geometria dos sentidos

Sei o que quero de ti: partilhar as visões de beleza e de escuridão. E sim, a infinita liberdade de quem sabe estar quase a tocar o divino. Essa é a matéria de que és feito.
Onde vês vazio, sinto plenitude; onde lamentas redundância, leio intensidade... A repetição das palavras, dos gestos, o pensar sobre o que já se pensou, fazer o que já foi feito, ver o que já foi visto...dependendo da sensibilidade e inteligência da pessoa, pode tornar-se a mais aborrecida das tarefas, ou uma explosão de fertilidade. Como espreitar pelas faces de um cristal, uma multiplicidade de perspectivas, jogos de luz e sombra, reflexões, refracções, geometria dos sentidos. Um universo em cada ideia, se a ideia contemplar o próprio universo. O gesto que abarca o mundo, se o mundo estiver contido na intenção do gesto. E os sentimentos maiores que a Vida...
Tu sabes tudo isto...
Preciso do teu regaço e do teu olhar.
Sim, o local onde a espuma do mar e o sal se fundem é meu...e teu...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

há um tempo...

há um tempo para voar e um tempo para aterrar
há um tempo de mudança e há um tempo de estabilidade
há um tempo de tempestade e um tempo de acalmia
há um tempo para nos virarmos do avesso e viver tudo com intensidade até à saturação dos sentidos
há um tempo para não sentir
há um tempo de plenitude e um tempo de vazio
há um tempo para estar no olho do furacão e ser engolido por ele
há um tempo para admirar de fora a sua capacidade renovadora

haverá um espaço onde se cruzam? talvez...
há um tempo, algures no meio, para preparar o turbilhão
aprontar as asas para a largada e remendar as redes que nos apoiam na queda...

sábado, 31 de janeiro de 2009

Os amores existem para acabar cedo. O teu toque é veludo, mas as lembranças são lâminas.
In: Ode a Otília por J. M.

Continuo à espera...

Amo-te...será que sim? Pode o amor existir sem o seu objecto? Não sei realmente se te amo, mas sei que te amei muito. E se te visse? O amor que sinto agora parece abstracto, embate nessa parede e volta para trás, para o ninho de recordações, objectos, música, livros, odores... não o sinto na carne como antigamente. É como o som que não se pode propagar no vácuo por falta de matéria, que precisa de fazer vibrar partículas para existir. O presente é este vácuo. Pergunto-me se sinto realmente algum amor agora, neste exacto momento...ou se é a poderosa e prodigiosa memória a fazer as vezes dos sentidos?... A memória é pouco imune ao tempo... Quero acreditar que ainda te amo, com os sentidos. Fecho os olhos, impregno-me com força, mas nada. Nada se propaga. Nenhum arrepio na pele, nenhuma arritmia, nenhuma quebra da respiração...Só resta este vazio. Um vazio assim dentro de uma pessoa é a coisa mais triste que pode haver.

Continuo à espera que venhas...

Lunário

Estou sozinho, ardo na memória das noites em que não te conhecia. E não sei se suportarei o peso do teu rosto ausente sobre o peito, tatuado; e talvez recorde a tua respiração enforcando-me, noite após noite, enquanto durmo. Tua mão escavou o desejo entorpecido nestas débeis veias, e já não sei se sonhamos o mesmo sonho, ou se nos levantamos ao mesmo tempo para o amor, mas ainda te amo.

Aliso tuas pálpebras durante as noites de vigia e sei que uma vida anterior à minha presença as feriu. No entanto, sinto que ainda és capaz de me olhar como se eu contemplasse o mar. De resto, os dias acumulam-se uns sobre os outros, iguais, sob o negro esplendor do sol. E latejamos, além, onde nos perderemos para sempre.

As tuas mãos vestiram as minhas, e fizeram-nas voar de sedução em sedução. Mas, dentro das fotografias, erguem-se pirâmides de cintilantes ossos, pequenas nódoas de memórias, feixes de veias quebradas pelas chuvas...não, não é o solitário canto do noitibó que nos surpreende, nítido, persistente, mas sim o grito que há-de crescer do fundo de nós. E, com o tempo, as mãos, as tuas, cairão também no esquecimento...e delas apenas permanecerá uma sensação de ardor sobre a minha pele.

Na busca reacendo uma navalha de lume para sufocar a solidão e as palavras que já nada podem revelar, nem ajudar.

Mas se um dia voltares, acorda-me, como inesperadamente me acordaste uma noite. Não me deixes dormir mais, desperta-me e tudo se iluminará num gesto, num sorriso teu.

(...)

Regressa. Regressa ao escorrer dos dedos enrolados no sexo, ao riso matinal dos corpos saciados, às nocturnas conversas das esplanadas, aos jogos de sedução, aos engates, ao murmúrio das vozes nos becos da cidade, à ofegante trepidação da manhã, regressa. Porque as palavras não te substituem e estão cheias de pústulas no coração das sílabas.
Regressa e oferece-te à preguiça triste de quem continua aqui, vivo, sorvendo a espiral da sua própria ausência.
Regressa, peço-te, mesmo antes de partires. Regressa à voracidade do desejo, e à incendiada paixão dos nocturnos tigres...


Acordo para ti, como sempre acordei, cada manhã menos rico e mais esquecido de mim.

Lunário,  Al Berto

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008


Se eu pudesse
Ter-te em vez dos versos,
Ou ter um verso em vez de ti,
Ou ter os olhos
Como os de um gato
Para perscrutar a noite
Onde isso se decide.

Pedro Mexia

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Morrer é nada; difícil é perder-te...

Deixa-me pois. Que não se entristeça
a bela idade que de ansiedade te inflama
e por mim, em infantis impulsos, se demora.

Diz-me tu adeus, já que eu não posso.
Morrer é nada; difícil é perder-te.

Umberto Saba

A saudade...

Aí está a razão por que escreverei. Desenterrarei todas as minhas recordações, porque sou uma profanadora nata. E fá-lo-ei antes que o amor que te tenho desapareça tão inelutavelmente como a maré que deixa a praia molhada, juncada de inúteis destroços, antes que a natureza implacável feche a ferida que me tiveres feito e falsifique a emoção das palavras que tivermos pronunciado. Antes que me seja preciso reabrir as cicatrizes para as fazer verter sangue, essas insensíveis cicatrizes da tristeza e da alegria. Contarei como nos amámos e como lutámos para não sermos destruídos pelos pequenos nadas da existência. E como eles nos destruíram e como nós os esquecemos. Tal como toda a gente. Porque somos, nem mais nem menos que quaisquer outros, amantes efémeros e imperfeitos num mundo eternamente inconstante.

A Colina da Saudade, An Suyin

love is more thicker than forget

love is more thicker than forget
more thinner than recall
more seldom than a wave is wet
more frequent than to fail

it is most mad and moonly
and less it shall unbe
than all the sea which only
is deeper than the sea


love is less always than to win
less never than alive
less bigger than the least begin
less littler than forgive


it is most sane and sunly
and more it cannot die
than all the sky which only
is higher than the sky

e.e. cummings

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Elogio do Amor

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber.Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?O amor é uma coisa, a vida é outra.O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”.Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar.O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina.O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente.O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.O amor é uma coisa, a vida é outra.A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.Não se pode ceder. Não se pode resistir.A vida é uma coisa, o amor é outra.A vida dura a Vida inteira, o amor não.Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
por Miguel Esteves Cardoso in Expresso

terça-feira, 27 de março de 2007


Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei.

Sophia Mello Breyner Andresen