sábado, 28 de novembro de 2009
Onde estás, Mr. Lawrence?
Há dias assim... numa sucessão de acontecimentos, perde-se tudo...impossível parar, impossível controlar, impossível saber como vai ser amanhã...e nada faz sentido...
Onde estás, Mr. Lawrence?
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
You Are Welcome to Elsinore
YOU ARE WELCOME TO ELSINORE
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny
sábado, 5 de setembro de 2009
segunda-feira, 13 de julho de 2009
quinta-feira, 2 de julho de 2009
O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...
Álvaro de Campos
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...
Álvaro de Campos
domingo, 31 de maio de 2009
sábado, 30 de maio de 2009
A extrema comoção
Todos os comboios te trazem até mim,
pequena luz do meu desassossego,
num sussurro de promessa inconfessada,
num desafio de pergunta sufocante.
Vais e voltas, audaz e indefesa,
na migração branda de todos os afectos
e é o instinto que me dá o teu nome o timbre e o tom das revelações que embriagam.
Nunca a distância pôs tão perto
a mão que treme e a tentação do lume.
Vais e voltas sem que o saibas
é por mim que vens e por ti que parto,
que o sentimento que sustenta estes dias
é volátil e breve como um pássaro de névoa,
como uma serpente de jade, como um fumo
de ópio num encontro contra o tempo
e a pressa com que o tempo se disfarça e aniquila.
Vais e voltas e é de mim que te apartas
nesse fogo de quereres estar não estando
nesta inquietude de seres gare e cais
quando tudo em ti pede que sejas apenas casa e corpo.
E como eu te imito, te repito e sigo
neste assombro de acordarmos em nós
o sobressalto da lava que faz do enlace
uma extrema e indefinível comoção.
José Jorge Letria
pequena luz do meu desassossego,
num sussurro de promessa inconfessada,
num desafio de pergunta sufocante.
Vais e voltas, audaz e indefesa,
na migração branda de todos os afectos
e é o instinto que me dá o teu nome o timbre e o tom das revelações que embriagam.
Nunca a distância pôs tão perto
a mão que treme e a tentação do lume.
Vais e voltas sem que o saibas
é por mim que vens e por ti que parto,
que o sentimento que sustenta estes dias
é volátil e breve como um pássaro de névoa,
como uma serpente de jade, como um fumo
de ópio num encontro contra o tempo
e a pressa com que o tempo se disfarça e aniquila.
Vais e voltas e é de mim que te apartas
nesse fogo de quereres estar não estando
nesta inquietude de seres gare e cais
quando tudo em ti pede que sejas apenas casa e corpo.
E como eu te imito, te repito e sigo
neste assombro de acordarmos em nós
o sobressalto da lava que faz do enlace
uma extrema e indefinível comoção.
José Jorge Letria
Desassossego...
"(...) o que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a procurar alibis para justificar o nosso conformismo então está tudo lixado."
José Afonso
José Afonso
sábado, 25 de abril de 2009
domingo, 1 de março de 2009
Mulher na Lua...
Frau im Mond, Fritz Lang, 1929
É o homem que tem um ideal que vence todos os outros.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Uma nova visão...
http://www.fotothing.com/Um lugar/ acontecimento que nos coloque em face de uma nova visão de nós mesmos e do que nos envolve, pela criação de uma relação intensa com o mundo.
N.R.
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Geometria dos sentidos
Sei o que quero de ti: partilhar as visões de beleza e de escuridão. E sim, a infinita liberdade de quem sabe estar quase a tocar o divino. Essa é a matéria de que és feito.
Onde vês vazio, sinto plenitude; onde lamentas redundância, leio intensidade... A repetição das palavras, dos gestos, o pensar sobre o que já se pensou, fazer o que já foi feito, ver o que já foi visto...dependendo da sensibilidade e inteligência da pessoa, pode tornar-se a mais aborrecida das tarefas, ou uma explosão de fertilidade. Como espreitar pelas faces de um cristal, uma multiplicidade de perspectivas, jogos de luz e sombra, reflexões, refracções, geometria dos sentidos. Um universo em cada ideia, se a ideia contemplar o próprio universo. O gesto que abarca o mundo, se o mundo estiver contido na intenção do gesto. E os sentimentos maiores que a Vida...
Tu sabes tudo isto...
Preciso do teu regaço e do teu olhar.
Sim, o local onde a espuma do mar e o sal se fundem é meu...e teu...
Onde vês vazio, sinto plenitude; onde lamentas redundância, leio intensidade... A repetição das palavras, dos gestos, o pensar sobre o que já se pensou, fazer o que já foi feito, ver o que já foi visto...dependendo da sensibilidade e inteligência da pessoa, pode tornar-se a mais aborrecida das tarefas, ou uma explosão de fertilidade. Como espreitar pelas faces de um cristal, uma multiplicidade de perspectivas, jogos de luz e sombra, reflexões, refracções, geometria dos sentidos. Um universo em cada ideia, se a ideia contemplar o próprio universo. O gesto que abarca o mundo, se o mundo estiver contido na intenção do gesto. E os sentimentos maiores que a Vida...
Tu sabes tudo isto...
Preciso do teu regaço e do teu olhar.
Sim, o local onde a espuma do mar e o sal se fundem é meu...e teu...
domingo, 1 de fevereiro de 2009
há um tempo...
há um tempo para voar e um tempo para aterrar
há um tempo de mudança e há um tempo de estabilidade
há um tempo de tempestade e um tempo de acalmia
há um tempo para nos virarmos do avesso e viver tudo com intensidade até à saturação dos sentidos
há um tempo para não sentir
há um tempo de plenitude e um tempo de vazio
há um tempo para estar no olho do furacão e ser engolido por ele
há um tempo para admirar de fora a sua capacidade renovadora
haverá um espaço onde se cruzam? talvez...
há um tempo, algures no meio, para preparar o turbilhão
aprontar as asas para a largada e remendar as redes que nos apoiam na queda...
há um tempo de mudança e há um tempo de estabilidade
há um tempo de tempestade e um tempo de acalmia
há um tempo para nos virarmos do avesso e viver tudo com intensidade até à saturação dos sentidos
há um tempo para não sentir
há um tempo de plenitude e um tempo de vazio
há um tempo para estar no olho do furacão e ser engolido por ele
há um tempo para admirar de fora a sua capacidade renovadora
haverá um espaço onde se cruzam? talvez...
há um tempo, algures no meio, para preparar o turbilhão
aprontar as asas para a largada e remendar as redes que nos apoiam na queda...
sábado, 31 de janeiro de 2009
Noites estreladas...
Continuo à espera...
Amo-te...será que sim? Pode o amor existir sem o seu objecto? Não sei realmente se te amo, mas sei que te amei muito. E se te visse? O amor que sinto agora parece abstracto, embate nessa parede e volta para trás, para o ninho de recordações, objectos, música, livros, odores... não o sinto na carne como antigamente. É como o som que não se pode propagar no vácuo por falta de matéria, que precisa de fazer vibrar partículas para existir. O presente é este vácuo. Pergunto-me se sinto realmente algum amor agora, neste exacto momento...ou se é a poderosa e prodigiosa memória a fazer as vezes dos sentidos?... A memória é pouco imune ao tempo... Quero acreditar que ainda te amo, com os sentidos. Fecho os olhos, impregno-me com força, mas nada. Nada se propaga. Nenhum arrepio na pele, nenhuma arritmia, nenhuma quebra da respiração...Só resta este vazio. Um vazio assim dentro de uma pessoa é a coisa mais triste que pode haver.
Continuo à espera que venhas...
Continuo à espera que venhas...
Lunário
Estou sozinho, ardo na memória das noites em que não te conhecia. E não sei se suportarei o peso do teu rosto ausente sobre o peito, tatuado; e talvez recorde a tua respiração enforcando-me, noite após noite, enquanto durmo. Tua mão escavou o desejo entorpecido nestas débeis veias, e já não sei se sonhamos o mesmo sonho, ou se nos levantamos ao mesmo tempo para o amor, mas ainda te amo.
Aliso tuas pálpebras durante as noites de vigia e sei que uma vida anterior à minha presença as feriu. No entanto, sinto que ainda és capaz de me olhar como se eu contemplasse o mar. De resto, os dias acumulam-se uns sobre os outros, iguais, sob o negro esplendor do sol. E latejamos, além, onde nos perderemos para sempre.
As tuas mãos vestiram as minhas, e fizeram-nas voar de sedução em sedução. Mas, dentro das fotografias, erguem-se pirâmides de cintilantes ossos, pequenas nódoas de memórias, feixes de veias quebradas pelas chuvas...não, não é o solitário canto do noitibó que nos surpreende, nítido, persistente, mas sim o grito que há-de crescer do fundo de nós. E, com o tempo, as mãos, as tuas, cairão também no esquecimento...e delas apenas permanecerá uma sensação de ardor sobre a minha pele.
Na busca reacendo uma navalha de lume para sufocar a solidão e as palavras que já nada podem revelar, nem ajudar.
Mas se um dia voltares, acorda-me, como inesperadamente me acordaste uma noite. Não me deixes dormir mais, desperta-me e tudo se iluminará num gesto, num sorriso teu.
(...)
Regressa. Regressa ao escorrer dos dedos enrolados no sexo, ao riso matinal dos corpos saciados, às nocturnas conversas das esplanadas, aos jogos de sedução, aos engates, ao murmúrio das vozes nos becos da cidade, à ofegante trepidação da manhã, regressa. Porque as palavras não te substituem e estão cheias de pústulas no coração das sílabas.
Regressa e oferece-te à preguiça triste de quem continua aqui, vivo, sorvendo a espiral da sua própria ausência.
Regressa, peço-te, mesmo antes de partires. Regressa à voracidade do desejo, e à incendiada paixão dos nocturnos tigres...
Acordo para ti, como sempre acordei, cada manhã menos rico e mais esquecido de mim.
Lunário, Al Berto
Aliso tuas pálpebras durante as noites de vigia e sei que uma vida anterior à minha presença as feriu. No entanto, sinto que ainda és capaz de me olhar como se eu contemplasse o mar. De resto, os dias acumulam-se uns sobre os outros, iguais, sob o negro esplendor do sol. E latejamos, além, onde nos perderemos para sempre.
As tuas mãos vestiram as minhas, e fizeram-nas voar de sedução em sedução. Mas, dentro das fotografias, erguem-se pirâmides de cintilantes ossos, pequenas nódoas de memórias, feixes de veias quebradas pelas chuvas...não, não é o solitário canto do noitibó que nos surpreende, nítido, persistente, mas sim o grito que há-de crescer do fundo de nós. E, com o tempo, as mãos, as tuas, cairão também no esquecimento...e delas apenas permanecerá uma sensação de ardor sobre a minha pele.
Na busca reacendo uma navalha de lume para sufocar a solidão e as palavras que já nada podem revelar, nem ajudar.
Mas se um dia voltares, acorda-me, como inesperadamente me acordaste uma noite. Não me deixes dormir mais, desperta-me e tudo se iluminará num gesto, num sorriso teu.
(...)
Regressa. Regressa ao escorrer dos dedos enrolados no sexo, ao riso matinal dos corpos saciados, às nocturnas conversas das esplanadas, aos jogos de sedução, aos engates, ao murmúrio das vozes nos becos da cidade, à ofegante trepidação da manhã, regressa. Porque as palavras não te substituem e estão cheias de pústulas no coração das sílabas.
Regressa e oferece-te à preguiça triste de quem continua aqui, vivo, sorvendo a espiral da sua própria ausência.
Regressa, peço-te, mesmo antes de partires. Regressa à voracidade do desejo, e à incendiada paixão dos nocturnos tigres...
Acordo para ti, como sempre acordei, cada manhã menos rico e mais esquecido de mim.
Lunário, Al Berto
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Morrer é nada; difícil é perder-te...
Deixa-me pois. Que não se entristeça
a bela idade que de ansiedade te inflama
e por mim, em infantis impulsos, se demora.
Diz-me tu adeus, já que eu não posso.
Morrer é nada; difícil é perder-te.
Umberto Saba
a bela idade que de ansiedade te inflama
e por mim, em infantis impulsos, se demora.
Diz-me tu adeus, já que eu não posso.
Morrer é nada; difícil é perder-te.
Umberto Saba
A saudade...
Aí está a razão por que escreverei. Desenterrarei todas as minhas recordações, porque sou uma profanadora nata. E fá-lo-ei antes que o amor que te tenho desapareça tão inelutavelmente como a maré que deixa a praia molhada, juncada de inúteis destroços, antes que a natureza implacável feche a ferida que me tiveres feito e falsifique a emoção das palavras que tivermos pronunciado. Antes que me seja preciso reabrir as cicatrizes para as fazer verter sangue, essas insensíveis cicatrizes da tristeza e da alegria. Contarei como nos amámos e como lutámos para não sermos destruídos pelos pequenos nadas da existência. E como eles nos destruíram e como nós os esquecemos. Tal como toda a gente. Porque somos, nem mais nem menos que quaisquer outros, amantes efémeros e imperfeitos num mundo eternamente inconstante.
A Colina da Saudade, An Suyin
A Colina da Saudade, An Suyin
love is more thicker than forget
love is more thicker than forget
more thinner than recall
more seldom than a wave is wet
more frequent than to fail
it is most mad and moonly
and less it shall unbe
than all the sea which only
is deeper than the sea
love is less always than to win
less never than alive
less bigger than the least begin
less littler than forgive
it is most sane and sunly
and more it cannot die
than all the sky which only
is higher than the sky
e.e. cummings
more thinner than recall
more seldom than a wave is wet
more frequent than to fail
it is most mad and moonly
and less it shall unbe
than all the sea which only
is deeper than the sea
love is less always than to win
less never than alive
less bigger than the least begin
less littler than forgive
it is most sane and sunly
and more it cannot die
than all the sky which only
is higher than the sky
e.e. cummings
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Elogio do Amor
Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber.Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?O amor é uma coisa, a vida é outra.O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”.Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos.Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar.O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina.O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente.O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.O amor é uma coisa, a vida é outra.A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.Não se pode ceder. Não se pode resistir.A vida é uma coisa, o amor é outra.A vida dura a Vida inteira, o amor não.Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
por Miguel Esteves Cardoso in Expresso
por Miguel Esteves Cardoso in Expresso
terça-feira, 14 de agosto de 2007
domingo, 17 de junho de 2007
Dez mandamentos
1. Tu combaterás o teu conformismo.
2. Tu serás o mensageiro da liberdade.
3. Tu utilizarás a sexualidade.
4. Tu reinventarás a vida.
5. Tu elevarás a alma.
6. Tu oferecerás o tu amor.
7. Tu criarás uma arte artificial.
8. Tu perseguirás o teu objectivo.
9. Tu não serás exactamente o que és mas não deixarás de ser.
10. Tu darás qualquer coisa em troca.
2. Tu serás o mensageiro da liberdade.
3. Tu utilizarás a sexualidade.
4. Tu reinventarás a vida.
5. Tu elevarás a alma.
6. Tu oferecerás o tu amor.
7. Tu criarás uma arte artificial.
8. Tu perseguirás o teu objectivo.
9. Tu não serás exactamente o que és mas não deixarás de ser.
10. Tu darás qualquer coisa em troca.
sábado, 16 de junho de 2007
terça-feira, 8 de maio de 2007
Memória
Príncipe de melhores horas, outrora eu fui tua princesa e amámo-nos com um amor doutra espécie, cuja memória me dói.
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
terça-feira, 27 de março de 2007
quinta-feira, 22 de março de 2007
Embriaguez
embriagavas-me tanto com(o) o doce vinho branco que me ensinaste a apreciar que eu derramava generosamente nos copos de cristal comprados a propósito embora não fossem realmente de cristal gostavas desses copos tanto como eu e agora enchem-se de pó e esquecimento num canto do meu sótão vazio sem as espirais de fumo dos teus cigarros pensados lentamente a seguir ao deleite dos corpos sob a luz das estrelas envolvidos que estávamos na escuridão celestial do prazer
embriagavas-me de palavras e de silêncios na imensidão das noites partilhadas e deixávamos que o delírio da criação nos inflamasse até à exaustão dos sentidos até a mediocridade lá fora se tornar tão insuportável como uma peça de roupa que arranha o corpo e que despíamos para experimentar a embriaguez da pele quente
embriagavas-me no silêncio de uma música nossa os meus gestos presos ao infinito sempre à espera deste inevitável a tua mão na minha sempre a acalmar os meus demónios afinal eu adivinhava a mentira que tu vestiste com estonteante leveza como se eu não fosse a (única) pessoa que te estava no sangue
a minha embriaguez eras tu 48 horas de um dia vivido a dobrar por ti e por mim
embriagavas-me (apenas) com o teu olhar que permanece tatuado em mim e nesse torpor eu acreditava em tudo e queria tudo como se pudesse querer tudo como se me fosse permitido ter tudo
embriagavas-me tão simplesmente com o poder que tinhas para me embriagar
embriagavas-me os sentidos os meus olhos a brilhar na embriaguez desconcertante de te Amar
embriagavas-me com a tua sensualidade o toque aveludado dos teus dedos que nunca se enganavam deixavas-me ao rubro com o calor do teu corpo moreno de sol apertado no meu e os teus lábios que me devoravam ao mesmo tempo que falavam de eternidade calavam a fatalidade desta dor
e depois do vinho das palavras dos olhares do amor embriagava-me com o teu sémen oferecido como recompensa da minha loucura descontrolada por ti
embriagava-me quando te estava a perder e ainda não o sabia
embriaguei-me sozinha quando descobri como abrir as portas que te seduziam mais do que eu até não me reconhecer tanto tinha mudado porque me ensinaste a aprender e a ver na sombra dos teus olhos e um dia como Rimbaud eu vi a Beleza e como Rimbaud eu a acolhi no meu regaço
tentava embriagar-me quando te esquecias de mim para me esquecer que te esquecias de mim eu acabava por adormecer bêbeda de sono e cansaço as lágrimas a rasgarem-me a face sempre a arderem-me nos olhos equivocados
confesso: estive sempre embriagada, mas não era do doce vinho branco que te servia em copos de cristal que afinal não eram de cristal era de ti…
embriagavas-me de palavras e de silêncios na imensidão das noites partilhadas e deixávamos que o delírio da criação nos inflamasse até à exaustão dos sentidos até a mediocridade lá fora se tornar tão insuportável como uma peça de roupa que arranha o corpo e que despíamos para experimentar a embriaguez da pele quente
embriagavas-me no silêncio de uma música nossa os meus gestos presos ao infinito sempre à espera deste inevitável a tua mão na minha sempre a acalmar os meus demónios afinal eu adivinhava a mentira que tu vestiste com estonteante leveza como se eu não fosse a (única) pessoa que te estava no sangue
a minha embriaguez eras tu 48 horas de um dia vivido a dobrar por ti e por mim
embriagavas-me (apenas) com o teu olhar que permanece tatuado em mim e nesse torpor eu acreditava em tudo e queria tudo como se pudesse querer tudo como se me fosse permitido ter tudo
embriagavas-me tão simplesmente com o poder que tinhas para me embriagar
embriagavas-me os sentidos os meus olhos a brilhar na embriaguez desconcertante de te Amar
embriagavas-me com a tua sensualidade o toque aveludado dos teus dedos que nunca se enganavam deixavas-me ao rubro com o calor do teu corpo moreno de sol apertado no meu e os teus lábios que me devoravam ao mesmo tempo que falavam de eternidade calavam a fatalidade desta dor
e depois do vinho das palavras dos olhares do amor embriagava-me com o teu sémen oferecido como recompensa da minha loucura descontrolada por ti
embriagava-me quando te estava a perder e ainda não o sabia
embriaguei-me sozinha quando descobri como abrir as portas que te seduziam mais do que eu até não me reconhecer tanto tinha mudado porque me ensinaste a aprender e a ver na sombra dos teus olhos e um dia como Rimbaud eu vi a Beleza e como Rimbaud eu a acolhi no meu regaço
tentava embriagar-me quando te esquecias de mim para me esquecer que te esquecias de mim eu acabava por adormecer bêbeda de sono e cansaço as lágrimas a rasgarem-me a face sempre a arderem-me nos olhos equivocados
confesso: estive sempre embriagada, mas não era do doce vinho branco que te servia em copos de cristal que afinal não eram de cristal era de ti…
sexta-feira, 9 de março de 2007
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
King
Local de encontro com a Arte...livros, um café, um cigarro, um filme, a tua mão na minha...-"Toma, leva todos os postais!"
O “Sentimento” cumpriu-se como um “paradoxo metafórico-figurativo” (palavras de outrém...) sobre nós. O King é uma entidade viva, desde a minha primeira vez intuiu o desfecho fatal.
domingo, 21 de janeiro de 2007
Fanatismo
FANATISMO
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu já és toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»
Florbela Espanca
terça-feira, 16 de janeiro de 2007
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